Quem disse que o tango está fora de moda?

13/06/2010

Por Ana Elisa Arnold:
Sinônimo de sensualidade e glamour, o gênero conquista cada vez mais adeptos pelo mundo


Tango, gênero famoso em todo o mundo. Símbolo da cultura argentina. Gênero rico em beleza – transcendental e apaixonante. A também chamada dança dois por quatro, hoje patrimônio cultural da humanidade, já ultrapassou faz muito tempo as fronteiras de Buenos Aires e Montevidéu. A sensualidade humana transborda de seus movimentos e conquista a emoção do mais jovem ao mais experiente em variadas nacionalidades. Até da ciência o tango já chamou a atenção, ao revelar sua capacidade para curar certas doenças degenerativas

Quem conhece e pratica a dança desmistifica: o tango está na moda sim. E muito mais do que imaginamos. Prova disso é a quantidade de festivais e congressos que vem despontando no mundo todo nos últimos tempos, a exemplo do Festival Internacional de Tango de Lisboa e do Campeonato Mundial de Tango. Neste último, uma curiosidade chama a atenção: em sua última edição, em 2009, teve como ganhadores um casal de japoneses! Mais um fato revelador do caráter “sem fronteiras” do gênero.

No Brasil, a crescente realização eventos com a dança argentina é a prova da popularidade do tango no país. Cidades como São Paulo e Florianópolis são algumas das regiões que ganham destaque nesse quesito. Em entrevista ao Diário Catarinense, o idealizador do Congresso Internacional de Tango de Florianópolis, Fabiano Silveira, desabafa: “Tango é paixão, é sentimento. O bom do tango é que ele nunca é igual, uma dança sempre é diferente da outra. É um ritual, uma fantasia. Cria-se uma magia que faz as pessoas transcenderem”, diz. Outro exemplo é o projeto Tango na Rua, que agitou as praças paulistanas com a promoção da livre prática do gênero ao ar livre.

Filho do pranto

Nascido dos subúrbios de Buenos Aires, o tango surgiu no final do século XIX da mistura de vários ritmos provindos dos grupos de imigrantes europeus. Há quem diga que o tango se configura como um reflexo do Estado Moderno argentino. Segundo especialistas, a melancolia e solidão presentes em sua melodia remetem aos sentimentos daqueles que saíram de suas terras natais para uma terra que não conheciam. Para o escritor Alan Pauls, autor do livro O Passado, “as letras de tango, o populismo peronista e o lamento pelos mortos da ditadura dizem muito sobre a Argentina, um país que se alimenta do culto a suas vítimas”, diz em entrevista à Revista Bravo!. E o tango é apenas um reflexo disso.

Mas a dança não vivia só de pranto. Frequentemente se criavam letras picantes e bem humoradas. E, o mais curioso: na época era considerada obscena a dança em público entre homens e mulheres. Só podiam dançar homens com homens. E aí está o motivo da típica associação do gênero com os bordéis e cabarés, onde se podia praticar livremente a dança. Com a industrialização, a miséria e os bordéis transferiram-se para o centro da cidade, fase em que as letras tornam-se mais obscenas e violentas. A partir daí o tango começa sua viagem pelo mundo. Em Paris o gênero ganha novos ares, passando a ser aceito até nas “melhores famílias”. Assim, de porto em porto, a dança virou uma febre, sensação popular, renovando-se a cada geração com a integração de novos instrumentos e estilos de dança.

Remetendo às origens

Hoje o tango é dançado sem nenhum pudor entre homens e mulheres. Mas suas origens não foram totalmente esquecidas. Há quem ainda resgate os tempos em que a modalidade era dançada apenas entre os homens.

Em Nova York, por exemplo, o professor portenho Sérgio Segura, refletindo sobre esse fato curioso, decidiu levar sua paixão pelo gênero a gays, lésbicas e transexuais, abrindo uma escola de dança especializada em dar aulas para esse grupo. “Eu acredito que eles se sentem mais confortáveis no seu próprio grupo. Por isso, nestas aulas os gays e transexuais podem se expressar com liberdade e sem medos”, explica o profissional em e reportagem da Agência EFE.

Na Argentina, quem também resolveu retornar às origens do tango foram os chamados Irmãos Macana. A dupla tem feito sucesso mundo afora ao interpretarem o gênero como elementos teatrais e toques de humor.

O tango na telona

Não é de hoje que o tango, com toda a paixão marcante de seus movimentos, inspira até hoje filmes com seu poder de sedução. Para os mais jovens é difícil lembrar de alguns clássicos, como Os quatro cavaleiros da Apocalipse. Mas dos atuais é difícil esquecer. Quem não se lembra dos recentes musicais Chicago e Moulin Rouge, famosos musicais do cinema? Outros que fizeram história nas telonas com suas performances no tango foram: Vem dançar Tango, com Antônio Banderas, Shall we dance, com Richarde Gere e Jennifer Lopes, e o inesquecível Perfume de Mulher, com Al Pacino e Gabrielle Anwar.

Novo aliado da saúde

Que a dança relaxa e oferece bem-estar não é novidade. A lista de benefícios só cresce, provando que o mais saudável é manter-se em movimento. No caso do tango, seus passos podem ajudar a tratar problemas que variam desde as doenças de Alzheimer e Parkison, a fobias e problemas conjugais. A descoberta veio de um estudo na Escola de Medicina da Universidade Washington. Segundo os pesquisadores, os passos da dança argentina ajudaram os doentes a melhorarem sua memória.

Também em entrevista ao O Globo online, o presidente da Associação Internacional de Tangoterapia, sediada no País de Gales, Martin Sotelano, “a vantagem do tango é que existem muitos estilos diferentes, adequados para cada paciente específico”. A modalidade também é usada como terapia de casais na Itália. A ideia é focar o abraço e a comunicação entre ambos.

Sentido além da dança

Se antes o tango era sinônimo de transgressão, hoje configura-se como um estilo de vida, indo além da sensualidade e paixão aos quais remete. É o que pensa Gustava Varela, coordenador do projeto que implantou o curso de pós-graduação sobre o tango na Faculdade Latinoamericana de Ciências Sociais: “O tango te dá conselhos, te diz como deve viver. Repetidamente, afirma o que é bom e o que é mal. Quais são os valores que devem ser seguidos”, afirma o coordenador do projeto, Gustavo Varela, em entrevista à BBC.

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